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Gorpa revisitada

Postado por Ana C. |


Ó cidade dos meus amores e dos meus sofrimentos, segues tranqüila – e que assim sejas – mas, ainda que passe o tempo, nunca poderei tirar-te de mim aonde quer que eu vá. E como me dói que ainda sejas assim, tão atrasada, tão pobrezinha. Dói e continuará doendo. Afinal, guardas minha infância e também meus mortos.


Assim, que, um dia, tuas ruas não mudem apenas nas formas mas que tenham um ar bem resolvido e pacato, de quem não quer estar em outro lugar;

Que tuas crianças possam brincar tranquilamente e sem sobressaltos, dá-lhes uma infância feliz e elas não esquecerão de ti;

Que teus estudantes não desanimem com a falta de apoio nem tenham que abandonar seus sonhos para fazer qualquer outra coisa da vida, mas que nunca esqueçam que o principal não se aprende em bancos escolares;

Que teus professores ajudem os alunos a se descobrirem e lhes mostrem as possibilidades de alterar o futuro, que compreendam que respeito não se exige e que quem ama o que faz o consegue por consequência;

Que teus religiosos não cobrem em dinheiro a fé dos seguidores, e que percebam que fanatismo não leva a nada;

Que tuas beatas aprendam que cada caminho é o correto para quem o segue, e que os deuses não precisam de proselitismo;

Que teus velhos, senis e conservadores, consigam ver no novo a força da vida e que não transmitam aos jovens sua intolerância;

Que a diversidade de credos, cores e raças, seja bem-vinda, que cada um possa amar como e quando quiser para que tua face tenha mil tonalidades;

Que os visitantes, incautos, percebam que embora tua gente pareça triste, é de nascença, que essa ventania constante na cidade está também nos corações de teus filhos, e que não é nada fácil viver e morrer com um tufão no peito;

Que teus jovens encontrem em ti um regaço, que não precisem correr mundo buscando as oportunidades que tu lhes negaste, e que tua população entenda a revolta dos que ficam;

Que tuas putas sejam mais alegres e bonitas que outras putas;

Que teus bêbados sejam filosóficos e que os donos dos bares amoleçam o coração e não os expulsem, compreendendo que nessa terra fria vale mesmo é beber;

Que teus governantes jamais envergonhem teu povo, que teu povo não seja tão facilmente ludibriado e descubra o que fazer com a liberdade que lhe resta;

Que as pessoas descubram que em nenhum outro lugar o céu é tão bonito como o teu;

Que os que vão levem de ti uma doce lembrança de raras brisas mornas e que, no fundo de seus corações, queiram um dia voltar ainda que para apenas pensar “aqui fui feliz”;

E que esse dia não tarde, pois, até lá...


Ai de ti, Guarapuava!

1 comentários:

paty disse...

"que essa ventania constante na cidade está também nos corações de teus filhos, e que não é nada fácil viver e morrer com um tufão no peito".
poesia ainda que tardia. lindo.