11:36

A bruxa do ovo

Postado por Ana C. |


Minha infância teve, como toda infância que se preze deve ter, uma casa assombrada. Teve duas, na verdade, mas a de que eu quero contar é a da bruxa. E não necessariamente da casa, mas da bruxa em si.
Ela morava na esquina, quase em frente a minha casa. A casa vivia fechada, mesmo quando ela estava lá. Ardíamos de curiosidade tentando imaginar como é que seria a tal casa por dentro. Honestamente? Ainda ardo.
O bairro era afastado do centro e a nossa rua, de duas quadras, também era pacata: o lugar certo para as crianças crescerem brincando na rua. O que não significa que não houvessem assaltos lá de quando em vez. E todos tomávamos as devidas precauções: cadeados, grades e cachorros. Todos, menos a bruxa. O portão, baixíssimo como o muro, vivia aberto, dando para o quintal onde o mato crescia quando e como queria, e até hoje não sei como nunca tomou a casa. Mas o fato é que nunca assaltaram e, pelo que lembro, nunca nem tentaram assaltar a casa da bruxa.
Outra coisa que nunca se sabia com certeza é se ela estava em casa ou não. Quer dizer, ela era estranhíssima, morava sozinha e era professora (viu!? bruxa com certeza!) então quando ela estava no colégio era porque não estava em casa. Óbvio que era no horário em que também estávamos na escola, então servia só como informação adicional.
E nesse saber-não-saber apostávamos quem teria a coragem de entrar mais longe no quintal da bruxa. Eu entrava, coração na boca, fazendo de conta que não tinha medo e que não aconteceria nada se ela me pegasse ali: nem me transformaria numa perereca de olhos esbugalhados, nem (provavelmente pior que virar uma perereca de olhos esbugalhados) contaria para minha mãe, que viria me aconselhar de perto com sua amiga varinha de marmelo. Entrava. E voltava orgulhosa trazendo um pedaço de mato como prova da façanha. Quanta ousadia!
Agora, o que sempre me intrigou mais foi que na árvore que havia em frente à casa da bruxa sempre havia um ovo. Sim, um ovo! Bem no lugar em que o tronco começava a se dividir em galhos. Por que motivo uma pessoa coloca um ovo numa árvore!? E era um ovo normal, de galinha, nem podre nem nada. Sei bem porque perdi as contas de quantos eu quebrei tentando desvendar o segredo. Pelo menos até me dizerem que se fosse bruxaria (e ui que medo que eu tinha) ela pegaria em mim. A partir daí deixei os ovos dela em paz e, então, não sei mais se algum deles apodreceu ou não. Mas acho que isso também não é relevante.
Apesar de não quebrar mais ovos não deixava de pensar neles. E continuava perguntando e aí alguém, não lembro quem, disse para eu largar de ser boba que aquilo era simpatia para parar de chover, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo! Aí é que piorou tudo. Por que como é que aquela mulher, com apenas um ovo!, conseguia controlar os elementos e escolher quando chover ou não? Como!? Eu queria saber. E aprender. Mas ao medo que já sentia juntou-se uma espécie de respeito e, lógico, nunca que eu lhe dirigi a palavra, ainda mais para perguntar do ovo.
Então mudei de bairro, cresci e esqueci da tal história do ovo e da bruxa. Até hoje.
Minha mãe ligou e contou que a Maria, nome por demais singelo mas era assim mesmo que se chamava a bruxa, havia morrido. Sem doença, sem acidente, sem aviso prévio (creio eu). Assim como se está vivo, um dois, não se está mais.
Com isso lembrei o medo de entrar sorrateira no quintal da bruxa e ser pega, a adrenalina, mesmo quando a bola havia caído lá e serviria como justificativa. Lembrei do pavor e da reverência que eu sentia por aquela mulher solitária e estranha que podia manipular o universo com um ovo. Lembrei do ovo e de como eu nunca soube, nem saberei, seu real significado.
Talvez seja melhor assim. Eu ficaria frustrada se ele fosse qualquer coisa menos do que o que eu o tornei para mim. A minha infância certamente perderia um pouco da mágica que ela teve.
E de qualquer forma...
Bom. Parece que hoje vai chover.

3 comentários:

Drika disse...

Que bom!!!

Mongo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mongo disse...

ponha um ovo numa arvore qualquer, pode ateh chover mas a magia pode vir a existir pra 'outrem'

K.