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Senhora na janela

Postado por Ana C. |

Céu cinzento mas temperatura agradável, coisa rara por aqui. Mais um domingo vazio em que me pergunto, de novo e sempre, o que virá a seguir. E, novamente, não sei. Volto para casa pela talvez única rua da cidade em que ainda resistem os antigos paralelepípedos e não o asfalto, ou ainda o anti-pó esburacado e que não resolve problema algum (afinal não haveria realmente o tal anti-pó, é uma rua do centro da cidade). Gosto de passar por essa rua, os paralelepípedos me trazem uma nostalgia de uma época mais simples, antiga e bonita, que eu não vivi, mas queria viver.
Sempre senti como se algumas das casas dessas duas quadras também parecessem ter parado no tempo, junto com os paralelepípedos. Gosto de olhar para as casas e imaginar como são as pessoas que moram ali e a vida que levam (costume que trago desde a infância), mas gosto especialmente de olhar para as casas dessa rua que têm o poder de me transportar para um outro tempo, sem explicação.
Seria apenas mais um dia em que caminho pelas mesmas ruas, pensando nas mesmas coisas e olhando para as mesmas casas se não fosse o fato de haver uma pessoa numa janela. Sentada, segurando com uma das mãos a cortina. Uma senhora, cabeça branca, sentada numa cadeira, em plena tarde de domingo, olhando o movimento de uma rua por natureza já não muito movimentada, e menos ainda num domingo. Mas ela sorria. Um sorriso grande, aberto, feliz mesmo. Ela sorria e olhava para a janela. E então, com o mesmo sorriso, ela acenou para mim.
Sorri também, e respondi o cumprimento. E então me senti infinitamente sozinha no mundo. O que leva aquela mulher a sentar, em plena tarde de domingo, na janela sorrindo? O que a vida lhe deu, e o que lhe tirou, ao longo de todos os anos para que hoje ela se sentasse sorrindo em frente à janela e acenasse para uma moça que ela nunca viu antes? Será que a loucura já tomou sua sanidade e, assim, ela pode ser plenamente feliz e sorrir para uma moça preocupada e se sentindo fora do tempo (ah, essas duas quadras...) que passa na rua? E é preciso perder a sanidade para poder ser feliz plenamente?
Sei que essa senhora na janela, parecendo e de uma forma estranha me lembrando a avó que não cheguei a conhecer, aumentou de uma maneira mágica e absurda a nostalgia que essa rua já me provocava. Uma espécie de poesia no ar.
Hoje, eu seria capaz de me sentar a ver o mundo passar em uma rua deserta, como são as ruas aqui no domingo, e sorrir? Provavelmente não. Iria assistir tv, ou fazer qualquer outra coisa das coisas sempre atrasadas que eu tenho para fazer.
E, caso eu parasse para olhar o mundo através da janela, eu sorriria? Acenaria para alguém que passa, sentindo naquela rua um tempo fora do tempo, e esse alguém também me veria como uma espécie de miragem, alguém saída desse outro tempo que não o convencional? Provavelmente não também.
E, quando eu tiver a idade dela, conseguirei então, calmamente, sentar para olhar através da janela e sorrir e acenar para uma moça que passa e fazê-la desejar viver de tal forma que um dia também ela possa sentar-se para olhar através da janela e sorrir e acenar para outra moça que passa? Espero que sim. Porque hoje eu voltei a acreditar que a vida pode ser bonita. Tudo porquê... eu vi uma senhora na janela.

3 comentários:

Roberta disse...

OIIIII!!!!!
Bom saber que vc voltou a escrever!! Eu vou continuar lendo até ficar uma velhinha sorridente na janela!! Se bem que é mais facil eu ficar carrancuda . . .

Luke disse...

É confortante encontrar sorrisos, sentimentos, em um munto tão moderno que esqueceu, a simplicidade do sorriso né?
As vezes eu também me pergunto se devo perder a sanidade para conseguir sorrir de forma simples...
Adorei o texto!

Lucas

Drika disse...

Quando olho para as casas sinto cvontade de conhecer por dentro... Quando vejo algumas pessoas, não todas, mas algumas, também tenho vontade de conhecer como é por dentro.
Gostei do seu texto Anoca!!!
Mara!!! hehe