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Escritos alardeados em banheiros sujos

Postado por Ana C. |


Assim como veio se vai: locomotiva. Lá se vão os vagões, um a um, até a fumaça sumir no horizonte. Um menino corre ao lado do trem por instantes, até saber inútil e desistir, ficando a imaginar, absorto, como deve ser grande esse mundão. Depois esquece e vai brincar de outra coisa.

Antes que as vontades acabem, como encontrar uma mistura entre distância e proximidade? (Não me prenda.) – Será que explodo?, sístole. Ainda hoje?, diástole. – Séculos de alienação de consciência em nome do que achávamos que fosse o amor. Agora o esperar, lento e firme, nos cinco aguçados sentidos. Diretamente, de forma simples e não possessiva, a sempre busca de algo mais. Preciso do equilíbrio dos elementos, o não ter que colocar ordem nas coisas. Quero ar.

(Talvez nos encontraremos em uma praça qualquer, do nada, e nos reconheceremos como folha que cai longe do pé.)

Como se ao invés de suavemente aparar as arestas, adoçar para o que espera, brutalmente estourassem os encanamentos no mais profundo do meu ser, arrebentando e libertando sentimentos escondidos, revelando e limpando tubulações entupidas e insuspeitas. Covas fundas, grandes fendas, imensas faltas. Resta esperar, olhos marejados, enquanto toda sujeira e podridão jorra da ferida aberta.

Esperar que se lave o interior até todas as máculas irem se desprendendo – blocos soltos, icebergs desgovernados feitos de sombras/álcool/sangue/lágrimas/suor, rodopiando em cachoeiras de água e sal – até que me reste nova, alva e limpa. Lembrando a sabão de coco. Verei então muito mais claramente que antes, mesmo que saiba que nem tudo nos será mostrado ainda.

A esperança é que, quando as águas serenarem, tudo sobre novo e disponível, terra fértil pronta para o plantio, para o que há de vir. Que por onde formos tudo melhore dentro e fora de nós, pois bem aventurados os que trilham seus caminhos sem jamais infelicitar o caminho dos outros.

Não resistimos. Para o tempo não importa o que passa, mas o que vem.

Transforma-se ou morre.

8 comentários:

Paula de Assis Fernandes disse...

Ana, eu li, reli, e tô abismada ainda. Não sei qual parte é a melhor. Elegi três frases, pra mim, as melhores:
'm menino corre ao lado do trem por instantes, até saber inútil e desistir, ficando a imaginar, absorto, como deve ser grande esse mundão.'
'Para o tempo não importa o que passa, mas o que vem.'
'Transforma-se ou morre.'
Perfeito. Intenso. Bem a sua cara, adorei! Beijos

Camila Rufine disse...

Ana, não conhecia seu blog. A Paula acabou de me indicar. Ganhei a quarta-feira. :)
Parabéns, você escreve fodásticamente bem. Agora dá licença que eu tenho mais textos seus para ler... :P

Pedro Vieira disse...

Encontrei seu blog por acaso.
Espetacular! :)

pslc disse...

É realmente você escreve muito bem, muito bem mesmo. A alma se renova, limpa e cristalina e renasce a esperança fazendo com que a cada manhã você descubra um mundo novo, um mundo em que nunca nem sonhou que existisse. Ah um dia eu chego ai :~ hdusia. Te amo!

Anônimo disse...

Se o trem parte sem nos levar , é sinal que o mundo ainda nao está preparado pra nós, e que a nossa aventura ainda continua nesse lugar. Transformamo-nos a cada dia, a cada situação e morremos um pouquinho a cada nova descoberta. Renascer com o coração alvo, e a mente aberta pra o que virá.

( a sujeira é só uma forma de ignorar a limpeza)

amo..amo..amo..demais...

Pedro Vieira disse...

Olá, Ana!
Como já disse, gostei muito do seu blog.
Estou na organização de um evento que vai trazer grupos de pesquisa do PR todo para Toledo no começo de setembro.
Participo da comissão de cultura e uma das atividades é um varal de poesias.
Gostaria de saber se vc tem interesse em disponibilizar alguns textos seus. Lembrando que, no varal, as pessoas podem recolhê-los e levá-los embora.
Qualquer coisa, meu email é pedro_h_vieira@hotmail.com
Muito obrigado! Continuarei acompanhando o blog!
Abraços,
Pedro.

Drika disse...

"A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções". (Triângulo das Águas - Caio F. Abreu)

Paula de Assis Fernandes disse...

Olha, Ana, eu acho que eu tenho que começar a ganhar comissão pela divulgação do seu blog... hahaha
(Quem manda escrever tão bem!?)
Bjooo