Um dia de sol, um prédio amarelo e um quadro de flores. Preferia uma noite enluarada, brisa leve nas árvores e, ao fundo, a flauta daquele moço que toca na rua a música daquele filme que eu gosto tanto, e que ele nem deve ter assistido. Se é pra ter sol, pelo menos um barquinho no fundo, no azul imenso, enquanto eu lhe digo tudo o que sempre quis falar. E aí, na hora mais difícil, sopraria um breve e forte vento alísio enchendo nossos olhos de areia. Desabaria um temporal que nos faria rir e me faria esquecer a vergonha de ter finalmente dito tudo tudo. E se, por acaso, eu tivesse chorado, as lágrimas se misturariam com a chuva e eu nunca mais pensaria em como você me doía de vez em quando. Mas continuo aqui. Com um dia de sol. Um prédio amarelo. E um quadro de flores.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Tudo sobrou no lugar
Um dia de sol, um prédio amarelo e um quadro de flores. Preferia uma noite enluarada, brisa leve nas árvores e, ao fundo, a flauta daquele moço que toca na rua a música daquele filme que eu gosto tanto, e que ele nem deve ter assistido. Se é pra ter sol, pelo menos um barquinho no fundo, no azul imenso, enquanto eu lhe digo tudo o que sempre quis falar. E aí, na hora mais difícil, sopraria um breve e forte vento alísio enchendo nossos olhos de areia. Desabaria um temporal que nos faria rir e me faria esquecer a vergonha de ter finalmente dito tudo tudo. E se, por acaso, eu tivesse chorado, as lágrimas se misturariam com a chuva e eu nunca mais pensaria em como você me doía de vez em quando. Mas continuo aqui. Com um dia de sol. Um prédio amarelo. E um quadro de flores.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Pense num dia com gosto de infância
Dias desses, lendo sobre músicas da infância, fiquei pensando que minha infância não teve uma única música que a definisse. Foram tardes e tardes ao som dos vinis da Tv Colosso, Sandy e Júnior e da Xuxa – sim, confesso tudo. São dias perigosos estes, em que eu falo a verdade – mas ao tentar lembrar de uma música sequer dessas... nada.
Caiu tudo no esquecimento.
Lógico, um ou outro refrão, aqueles mais clichês que volta e meia alguém relembra ou ainda tocam em algum lugar, ainda ficaram, mas é realmente frustrante que, tudo aquilo que eu dançava até a exaustão e gritava até ficar sem voz, tenha sumido assim dessa minha memória. Ou vai ver viver é isso mesmo: aproveitar as coisas até a exaustão só para então esquecê-las.
Mas lembro muito bem de uma que eu achava divertidíssima. “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”. Como é que se pode imaginar uma casa sem teto!? Só de tentar imaginar eu já ria sozinha. E se chovesse? Como as pessoas fariam? Não deve ser nem um pouco saudável morar em uma casa sem teto quando chove. Lógico que nessa época nem passava pela minha cabeça que realmente existiam pessoas que não tinham teto, não tinham nada.
“Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede”. Teto, chão, parede... que casa era essa feita de nuvem!? “Ninguém podia fazer xixi, porque pinico não tinha ‘li’”. Eu não tinha a menor idéia do que era esse tal “li” que o penico não tinha, mas sabia que devia ser algo importantíssimo, tanto que, na sua falta, o penico perdia sua função principal: a de se poder fazer xixi. Era o caos. E eu perguntava o que era “li” e ninguém sabia me responder, então eu escutava a música de novo e pensava que podia ser “ni”, o que fazia um pouco mais de sentido (penico sem “ni”, um “peco”, e ninguém que eu soubesse fazia xixi num “peco”, fosse lá o que isso fosse) mas não. Era “li” mesmo. E continuei na ignorância até, muito tempo depois, ler a letra e descobrir que o meu “li” nada mais era que “ali”. Só não sei por que ninguém me contou isso “ali”, na época.
“Mas era feita com muito esmero, na rua dos ‘lobos’ número zero”. Se os três porquinhos tinham casas, tanto que o lobo tentava e tentava derrubá-las, se os três ursos tinham casa, Cachinhos Dourados que o diga, óbvio que os lobos tinham que ter uma casa. Só não era muito claro por que é que tinha que ser uma casa assim, tão cheia de nada, cimentada no mundo das ideias. Será por que eles eram ‘malvados’? Começava aí, em doses infantis, a tal educação positivista?
E também foi só depois de muito tempo que descobri que a rua era dos “bobos” e não dos “lobos”. Como foi depois de muito tempo que descobri que a música era do poeta Vinícius e, nessa época, eu já andava irremediavelmente apaixonada por ele.
Boba eu que tenho como uma das lembranças musicais mais vívidas da minha infância uma canção que eu nem sequer entendia direito.
E boba eu de achar que hoje em dia entendo as coisas. Vai ver passam alguns anos e, de repente, ploft!, o entendimento despenca em cima da gente como uma fruta madura.
Pareço ouvir risos de crianças zombando de mim.
De qualquer forma...
O que será que as crianças escutam hoje!?
sábado, 31 de outubro de 2009
Acima do elevador, o céu
Eu quase disse 'leve-me' mas você disse 'vá embora'."
Se fosse ficção tudo não acabaria assim, com um fechar de portas. O mocinho, ou a mocinha, sairia esbaforido pelo corredor, pediria desculpas e perceberiam o imenso erro que estavam cometendo. Mas se a história fosse minha, já seria tarde, as portas do corredor teriam se fechado, o outro elevador não chegaria nunca, e o protagonista se precipitaria 10 andares escadas abaixo. Lógico que não chegaria a tempo. E ficaria com uma cara de cachorro que caiu da mudança.
Mas na real mesmo nem assim as coisas são. A porta se fecha e ainda se pensa um pouco, então você levanta, vai beber alguma coisa e esquece o assunto. Não é que não se importe mais, é que talvez as lágrimas tenham secado, talvez tenhamos envelhecido, embrutecido. Talvez não importe mais mesmo. A ficção acabou obrigando demais e agora ninguém quer saber da real.
Mas depois de tudo quem sabe, depois de tudo sempre há esperança.
Quem sabe agora sim: o poeta.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Dia de circo
Quando Junival viu um circo pela primeira vez ele tinha nove anos e estava ajudando o pai a arar o campo. Quase nunca passava ninguém pela estreita estrada de chão batido ao lado da casa, desvio que acabava sendo mais longo que pelo asfalto para a vila mais próxima, exceto as carroças dos vizinhos. Assim, não foi sem espanto que Junival viu passar não um, mas diversos caminhões e trailers, multicoloridos e repletos de música.
Olhou para o pai com um olhar suplicante e, quando com um sorriso ele balançou a cabeça que sim, largou o arado ali mesmo e saiu correndo atrás da caravana. Nunca tinha visto nem ouvido falar de alguns daqueles animais enjaulados. Tão deslumbrado estava que não percebera que o leão já não tinha muitos dentes ou que o elefante parecia moribundo. Tudo era mágico.
Descobriu que o circo ficaria na vila cerca de uma semana e voltou para casa com o coração pesado de sair de perto de toda aquela gente barulhenta e feliz. Por ele ficaria olhando eles arrumarem as coisas até terminarem mas a mãe, indignada com a inconseqüência do pai, mandara um de seus irmãos mais velhos ir buscá-lo antes que fosse ela mesma e o trouxesse erguido por uma das orelhas.
Junival voltou para a casa contando pra todo mundo das maravilhas que vira. Mal podia esperar pela estréia, que seria no outro dia. Mas o pai, com um ar pesaroso, lembrou que mesmo que quisesse não tinha dinheiro para levar os sete filhos no tal circo, e que mandar apenas um deles seria injustiça. Com os olhos secos Junival passou a noite insone, tentando descobrir como entrar no circo. Não sabia como faria, só sabia que tinha que fazer.
E fez. E foi aí que descobriu o que queria fazer o resto da vida: qualquer coisa, desde que se casasse com a trapezista. Queria viver por todas as noites da sua vida aquela aura fantástica e com aquela lindeza leve da moça que voava no ar. A trataria como a deusa que sentia que ela era. Voltou todas as noites para vê-la e, quando o circo finalmente partiu, todo mundo já sabia que Junival um dia se casaria com uma trapezista. Um dia, porque por enquanto precisava ajudar a família. Tinha quatro irmãs menores e a mãe estava grávida mais uma vez. Só os dois irmãos e o pai não dariam conta. Sem falar que cria de pobre é igual pintinho novo: perde-se muito, dizia a tia Alzira.
Aos 15 anos não havia esquecido do seu sonho, mesmo nunca mais tendo passado circo algum por ali. Mesmo quando namorava Rosa, a filha do vizinho, Junival era totalmente honesto: “olhe Rosa, você sabe que eu até gosto de você mas acontece que eu vou é mesmo me casar com uma moça do circo. Desde já você tá avisada, que é pra não ficar sofrendo por aí depois que eu me for”. Rosa ria. Achava até engraçado que ele tivesse essas idéias e fosse assim, um pouco maluco, deixava ela mais apaixonada um pouquinho.
Por isso, quando deu-lhe a notícia que estava grávida, Rosa não entendeu porque o rosto de Junival endureceu e seus olhos se turvaram. Logo agora que, irmãos crescidos, ele estava pronto pra correr o mundo atrás da sua trapezista! Casou, como homem de bem que era faria. Nunca mais falou em circo e em trapezista, nem nunca seus filhos souberam de seus sonhos de juventude ou entenderam porque o pai era às vezes tão calado e tinha aquele ar distante. Junival desde então não ousara mais entrar em circo algum. Temia não ser forte o suficiente.
Foi só depois de velho, já cego pela catarata, que contou para as crianças que freqüentavam sua casa histórias de como era lindo um circo que conheceu na infância e de como os artistas eram todos magos, principalmente a trapezista.
Hoje, faz quase um mês que Junival está em coma e ninguém saberia dizer o que é que o mantém ainda agarrado à vida, e com uma face plácida e meio sorriso nos lábios. O que ninguém sabe é que agora, finalmente, Junival realizou seu sonho. Que ele é jovem e cheio de fantasias mais uma vez e que está voando nos trapézios ao lado de uma linda moça que lhe sorri, enquanto tambores vibram a cada acrobacia e as palmas do público os embalam. Não sabem que a moça é mágica, e que ele só não partiu ainda porque não chegou a hora do circo deixar a cidade. Que ele nunca mais ficará para trás.
Não sabem que, agora, todo dia é dia de circo.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Lições de abismo
Que só temos uma vida, mas todas as outras que poderiam ter sido se abrem em torno de nós como um leque e às vezes, por engano, acabamos penetrando nessas outras existências. Esse único momento de percepção, que nos atravessa como um raio, pode deixar aquela cicatriz antiga novamente latejando como louca.
E se não fui eu quem provocou essa situação, energia impossível de se conter, você tenta colocar ordem e ela explode na sua cara, também não está em mim estancar lajeados e rios. Mas sou por demais egoísta para torná-lo tão forte assim. Mesmo quando lhe dou a mão e vou com você até a beira do abismo, disposta a pular se você quiser, mesmo então escondo a certeza dessa história porque se você souber, se você perceber que basta um quase nada para me perder ou para me salvar, viverei em xeque.
Sim, são longos dias estes.
Tentei mais uma vez me consolar: que ele partisse se tinha que ir, mas pedi de todo o coração que pudesse voltar.
Afinal... são bonitos os reencontros.
E há de chegar o dia quando ele voltará, o rosto queimado de sol, brilho nos olhos e sorriso iluminado, assim, enfim liberto, enfim corajoso, enfim meu.
Esteio do paradoxo: liberdade é escravidão.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Sobre homens e formigas - (Resgate 2)
Esquece-se que a pedra não voa porque não quer, não porque não tem asas.
Quando criança, numa das minhas tardes de solidão, resolvi que ia criar formigas. Vi no colégio uma “fazenda” de formigas e achei lindo os caminhos que elas abriam nas camadas de terra e areia. Centenas e centenas de pontinhos pretos correndo sem parar de um lado para o outro, indo aonde com tanta pressa!? E talvez por isso mesmo, como todas as coisas inúteis e vãs, era belo.
Fui então produzir a casa da minha formiga – sendo eu uma só era justo que também fosse apenas uma formiga para não acarretar muita responsabilidade. Peguei um pequeno pires de plástico azul e coloquei água, as formigas também sentem sede, não?, separei várias pedrinhas, os mais alegres enfeites, vários tipos de plantinhas, é isso que elas comem, não?, além de uma xicarazinha (conjunto com o pires) para servir de montanha caso a formiga resolvesse praticar esportes ou viver emoções radicais.
Após ter verificado estar tudo que, supostamente, uma formiga precisaria para viver, fui escolher minha nova amiga. É. Foi um processo seletivo rápido: peguei uma “gordinha”, para poder visualizá-la facilmente, e soltei-a no lar que eu tinha cuidadosamente preparado.
A formiga nem deu atenção.
Tentava fugir do paralelepípedo da calçada mas eu, teimosamente, empurrava-a novamente para ver todas as maravilhas que eu construíra. “Deve ser fome”, pensei. Coloquei então uma panela de plástico sobre a casa, afinal toda casa tem um teto, sem falar que o sol podia fazer mal para a minha amiga ainda sem nome, tão pequena, coitadinha, e fui achar algo que ela comesse. Talvez só gostassem de açúcar, que eu já tinha visto formigas em doces, e não de matos e pedaços de plantas.
Quando voltei ela não estava mais lá.
Eu tinha preparado com todo carinho o espaço para ter aquela formiga e ela havia me abandonado. Fugiu. E fugiu por nem sei qual brecha que por mais que eu olhasse não encontrava nenhuma. O que diabos será que aquela formiga queria da vida!? Ser morta por algum outro bicho maior que ela? Por que não ficar ali? Eu não entendia como ela podia ter preferido qualquer outra coisa a tudo que eu tinha lhe feito...
Hoje... vai ver... eu sou uma formiga.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
O dia que Júpiter encontrou Saturno
Bonito, daquelas belezas que sabe se lá o porquê tocam fundo na gente, e que não é preciso entender.
Inteligente, porque hoje em dia, você sabe, não se pode aceitar menos. No mínimo o cara tem que saber conversar desde a órbita elíptica da terra até a teoria do caos, lógico, passando pelo último filme do Almodóvar.
Espirituoso, sim, porque só ser inteligente não basta, tem que engraçado também, que o bom humor salvará o mundo.
Sem falar no principal: o abraço estreito, jeito certo de agradar.
Agora!?
Só falta ele descobrir que eu também sou a pessoa perfeita e...
